Mostrando postagens mais recentes com o marcador 33 anos sem jango. Mostrar postagens mais antigas
Mostrando postagens mais recentes com o marcador 33 anos sem jango. Mostrar postagens mais antigas

domingo, 14 de março de 2010

O BRASIL PERDEU A GUERRA FRIA EM 1964

Nesta solenidade sobre a resistência, a contribuição que a família Goulart pode oferecer - é suscitar o debate de que está na hora de admitir que o BRASIL perdeu a Guerra Fria.
Após 40 anos da perda da nossa soberania, podemos encerrar a controvérsia, pois com a desclassificação dos documentos secretos norte-americanos estão definitivamente comprovados o patrocínio estrangeiro do golpe militar e o tamanho da farsa orquestrada em 01 de abril de 1964.

Quantas calúnias, injúrias e difamações sofreu a memória de meu pai, João Belchior Marques Goulart?
Hoje, uma compreensão mais exata do processo de perda de nossa soberania demonstra de forma inequívoca que Jango foi sábio o suficiente para recusar uma guerra civil sangrenta planeada para quebrar a unidade nacional. Jango não teve como evitar a derrota de nosso país, mas é o maior responsável pela integridade nacional que ainda perdura!


Sim, o objetivo estratégico do golpe de 01 de abril de 1964 era uma guerra civil que inviabilizasse o nascimento de uma nova potência mundial no hemisfério Sul do planeta. Esta era a previsão da CIA e mais uma etapa da guerra fechada promovida contra o nosso país desde 1945. Ora, as dívidas de sangue não se apagam.
Onde existem dívidas de sangue morre o bom senso, ninguém perdoa ninguém.
Uma guerra civil sangrenta teria por resultado o separatismo ou o Brasil se transformaria num Líbano. Era a morte certa da 4ª. potência mundial.


Talvez poucos brasileiros tenham registro na memória que a popularidade de João Goulart na época do golpe militar alcançava a cifra de 80% (oitenta por cento) do eleitorado. O apoio de grande parte das forças armadas pode ser medido pelo fato dos golpistas precisarem afastar mais de 4.000 militares legalistas para consolidar a ditadura. A CIA contava com a resistência legalista!


A proibição de pegar em armas para resistir dada por João Goulart aos legalistas, pegou os mentores do golpe militar desprevenidos, pois do mesmo modo que Getúlio Vargas fez em outubro de 1945 diante do golpe apoiado pelo embaixador Adolfo Eberle, o exílio voluntário de Jango anunciava seu retorno quando o processo democrático fosse restabelecido. Tal como Vargas em 1950!


Daí somos obrigados a rever a morte do Marechal Castelo Branco, um marionete que não conseguiu nem ganhar a eleição para o Clube Militar em 1962, mas tinha assumido o compromisso público e moral de promover eleições democráticas em 1965. Como poderiam deixar o marechal promover eleições e restabelecer a democracia, se sob a legalidade Jango era imbatível?


Este é o legado político de Jango! A integridade Nacional. Ele sabia que por detrás dos traidores da pátria estava a maior potência militar do planeta e que não havia vitória pelo caminho das armas. Jango renunciou ao maniqueísmo estrangeiro que já tinha articulado o separatismo, conforme mostram os documentos desclassificados com a possibilidade de declaração de independência do Estado de Minas Gerais e o desembarque de tropas estrangeiras, caso houvesse resistência dos legalistas contra a insurreição militar!


Jango diminui o tamanho da derrota do Brasil com seu exílio voluntário em 01 de abril de 1964, mas o que precisamos entender é que a queda do governo de João Goulart representou um dos ápices da guerra fechada promovida contra a América Latina. O Brasil era um dos principais baluartes da democracia, da Autodeterminação e Independência dos povos. A queda do Brasil teve um efeito dominó sobre as demais democracias latino-americanas.


O Brasil de hoje precisa entender a extensão da derrota que sofremos. Como aconteceu a perda de nossa autodeterminação e de nossa vontade soberana? Precisa entender que nossa submissão à potência hegemônica foi resultante de uma estratégia de Guerra...


Ora, o que é uma guerra? Clausewitz dizia que “a guerra é mais que um duelo em grande escala. A guerra é um ato de violência que visa compelir o adversário a submeter-se à nossa vontade.”


Outro estudioso, Hans Del Bruck teria sido o primeiro a assinalar que como havia duas formas de guerra, limitada ou ilimitada; deduz-se que deve haver duas modalidades de estratégia : a da aniquilação e a da exaustão. Enquanto na primeira a meta buscada é a uma batalha decisiva na forma convencional; na segunda estratégia da exaustão, a batalha representa apenas um dos vários meios utilizáveis, que incluem o ataque econômico, persuasão política e a propaganda para que o fim político seja alcançado.


A estratégia de exaustão não foi concebida por Del Bruck, pois Frederico o Grande já a chamava de Estratégia dos Acessórios e na verdade, o emprego dela tem sido glorificado por séculos. A estratégia da exaustão era chamada de tática da Espada embainhada pelo chinês Sun Tzu que afirmava em seu livro sobre a Arte da Guerra:


“Lutar e vencer em todas as batalhas não é a glória suprema; a glória suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar”.


Especialistas afirmam que o advento das armas nucleares e que o uso da bomba atômica sobre a cidade de Hiroxima praticamente tornou obsoleta a guerra convencional. A estratégia da exaustão passou a preponderar na guerra moderna depois de 1945, sendo realizada por meio de ações indiretas ou espoliativas.


Em que consistem as ações indiretas da estratégia da exaustão? Podemos citar o general romano Flavius Vegetius: “É melhor dominar o inimigo, impondo-lhe a fome, surpresa ou terror do que por uma ação geral, pois nesta a sorte tem amiúde preponderado mais que o valor!”.


Do ponto de vista dos especialistas podemos consideramos a guerra fechada uma doença do organismo social e podemos afirmar que os sinais sintomáticos que nos permitem diagnosticar sua existência são: a Miséria, a Ignorância, a Violência, a Insegurança e a Quebra da Autoridade Moral.


A Miséria resulta num quadro de injustiça que impossibilita o crescimento do organismo social, pois estabelece um conflito interno que retira energias da sociedade. Como promover a miséria de outro estado?


No Brasil, historicamente, vem se adiando a Reforma Agrária desde a abolição da escravatura. Uma redistribuição de riquezas que era necessária para nossa pacificação social e um desafio que o Governo de João Goulart resolveu enfrentar porque tinha uma agenda de interesses nacionais a cumprir!


A principal arma utilizada para promover a miséria tem sido a usura.
O sistema financeiro nada produz e a cobrança de altas taxas de juros retira todo o excedente de riqueza da sociedade, estanca o crescimento econômico, a criação de empregos e a conseqüente melhora de vida do trabalhador!


Principalmente, depois do Golpe de 01 de abril de 1964, o Brasil vem mantém uma das mais altas taxas de juros do mundo. Mesmo assim, continuamos crescendo, porque o governo de Jango, ao criar meios de financiar do sistema Eletrobrás em 1962, estabeleceu a expansão da matriz energética que sustentou o “Milagre Econômico”!


O bem estar criado pelo “milagre econômico teve pouca duração diante do processo hiperinflacionário da década de 80." Outro exemplo de usura que exauriu recursos e fez cair o padrão de vida obtido pela classe média na década de setenta.
Todo nosso excedente de riqueza é drenado pelo sistema financeiro e pelo endividamento do Estado.


A manutenção das altas taxas de juros de hoje não encontra justificativa na atual economia do planeta e é sintoma de que permanecêssemos sob tutela alheia.
O Brasil já perdeu tanta riqueza!


Em termos econômicos o Brasil perdeu o “negócio da China”. A leitura da crise de 1961 sob o ponto de vista da guerra fechada nos mostra que o objetivo principal da intervenção externa era impedir a consolidação do acordo de Pequim.


Vejamos qual foi a meta econômica visada pela guerra fechada: nós éramos 60 milhões de brasileiros e iríamos exportar para 800 milhões de chineses todo tipo de produto de alfinete à navio – o maior negócio da História da Humanidade!


O assunto era tão sério que o plano de invasão norte-americano do território do Brasil data do ano de 1961. A solução da crise pela implantação do parlamentarismo atendeu os interesses externos, pois entre os poderes do primeiro ministro estava a decisão de ratificar ou não os acordos internacionais...


Alguém quer calcular o tamanho do prejuízo que tivemos ao perder o “negócio da China”? Basta pensar que o segundo país a procurar a China foram os Estados Unidos, quando o dólar deixou de ter lastro em ouro e desvalorizou 70 % gerando uma crise econômica que nunca foi causada pelo preço do petróleo. Nixon foi à China, a guerra do Vietnam acabou e nós perdemos os frutos de um comércio bilateral explorado intensamente pelos norte-americanos desde 1971.
Na verdade, o capitalismo brasileiro também foi derrotado a partir da década de 60 mediante uma estratégia de espoliação para gerar miséria no Brasil...


A estratégia da Ignorância também foi utilizada contra o Brasil primeiramente pelo uso da propaganda e da desinformação. Os documentos da CPI do IBADE mostram como a imprensa e os meios de comunicação sofreram uma investida irresistível.
A imprensa nacional foi definitivamente contaminada, pois a mesma já vinha sendo utilizada para atacar o trabalhismo de Vargas.


No Governo João Goulart, a propaganda e a desinformação foram intensificadas! Além de derramar recursos em todo território nacional arrendando redações, contratando e demitindo jornalistas fornecendo recursos ao IBADE, a CIA por meio do IPES presidido pelo Golbery enviava um “informativo” semanal para a maioria dos oficiais da ativa das forças armadas, promovendo um recrutamento ideológico e buscando desestabilizar o governo por meio da difamação e da calúnia. O levantamento da pesquisadora Denise Assis, mostra que entre 16 e 1964, foram produzidos 200 filmes de propaganda pró-golpe de 1964. Um filme a cada três dias...


É óbvio que o desmantelamento da Universidade brasileira também pode ser creditado à estratégia da exaustão pelo fator da ignorância, mas o maior exemplo que podemos citar é o fim do programa de alfabetização de adultos criado por Jango em 1963 com o apoio do educador Paulo Freire. Em 1969, os analistas da CIA chegaram à conclusão que o programa de alfabetização precisa ser desativado porque estava levantando o nível de consciência política dos brasileiros...


Dá raiva saber disso, mas é preciso ter consciência de que ele usa o fator da Violência na Estratégia de exaustão para criar a insegurança pública. A insegurança contamina toda sociedade e drena energias que poderiam ser usadas para o bem estar social. Existe um estudo de uma pesquisadora norte-americana que explica que o súbito desmantelamento da polícia comunitária criada por Getúlio Vargas em 1933, a famosa dupla Cosme e Damião, tinha por objetivo desestabilizar a sociedade e favorecer o golpe de Estado com a quebra do aparato.


A retirada do policiamento das zonas pobres e periféricas teria ocorrido nos anos de 1957 e 1958 por influência do FBI e da CIA. Realmente, no ano de 1958, o Morro de São Carlos no Rio de Janeiro desceu para o asfalto para protestar contra a retirada do policiamento comunitário ali instalado há 25 anos: “Se retirar a polícia, a bandidagem vai crescer, seu doutor!”.


Uma pesquisa mais atenta dos acontecimentos próximos das eleições de 1960 vai apontar a promoção de diversos atentados à bomba sem autoria e sem explicação! Os documentos secretos em posse do Instituto João Goulart mostram que havia um atentado à bomba planejado para acontecer no comício da Central do Brasil em 13 de março de 1964 do qual os traidores desistiram para não criar um mártir.


Todos estes fatores da estratégia de exaustão trabalham para a divisão e a desintegração do organismo social, mas uma das piores feridas é provocada pela quebra da autoridade moral, pela traição e pela corrupção.


A contaminação das forças armadas brasileiras tem início na Itália e têm entre seus personagens a pessoa de Vernon Walters conhecido pela capacidade de interrogar, quebrar a resistência e converter os soldados alemães em colaboradores. Em 1942, os norte-americanos tinham 11 (onze) centros de inteligência militar instalados no Brasil. Toda rede nazista de espionagem no Brasil foi herdada pelos Serviços de Inteligência norte-americana e monitorada pelo futuro diretor da CIA Allen Dulles. Em 1942, Golbery freqüentava uma academia militar nos Estados Unidos. Em 1943, 03 geólogos norte-americanos foram enviados ao Brasil para fazer um levantamento das jazidas minerais que os Estados Unidos classificaram como reserva estratégica...


A quebra da autoridade moral se dá pelo uso da calúnia. A calúnia tem a natureza do carvão quando não queima suja. Foi intensamente usada contra Getúlio Vargas, pois era preciso desmistificar o “Pai dos Pobres”. E para isso se criou uma mentira fortíssima, acusaram Getúlio de mandar uma mulher grávida para os fornos nazistas, quando Olga Benário foi extraditada por ordem do Supremo Tribunal Federal em 1936, antes do Estado Novo.


O delegado Pastor que presidiu o inquérito do atentado da Toneleros está vivo e pode confirmar que o Major Vaz tinha dois tiros cruzados no coração, pelo que existiam dois atiradores de elite, e por conseqüência, podemos deduzir que Carlos Lacerda, o tal que engessou o pé ferido por bala, nunca foi o alvo real...


Golbery esteve presente em todas as insurreições militares desde o golpe de outubro de 1945 até o golpe de 01 de abril de 1964! Golbery escreveu o manifesto dos ministros militares contra a posse de Jango e presidiu o IPES sendo assalariado pela CIA. O corpo de espionagem norte-americano no Brasil inclui o embaixador brasileiro e sua esposa em Cuba em 1961 que recrutaram a irmã de Fidel para trabalhar para a CIA.


O embaixador Pio Correa antes de criar o Serviço de Informações do Itamaraty, fez trabalho de campo como espião para a CIA no México, recebendo elogios da Agência norte-americana em 1964, antes de ser nomeado embaixador no Uruguai para vigiar o presidente no exílio.


Jango foi alvo de uma intensa campanha de difamação. Antes durante e depois do governo foi acusado de comunista. Jango nunca foi comunista, mas como de fato ficou registrado pelo próprio Kennedy em gravações na Casa Branca, admitia que o presidente brasileiro não fosse, mas que esta difamação seria uma das armas usadas contra ele.


Jango foi alvo de mais de 200 processos promovidos para manchar sua reputação e honra, mas se defendeu em todos e provou sua inocência. Jango foi acusado de presidir um governo fraco, mas na verdade a história demonstra que reuniu um ministério de notáveis e desenvolveu um projeto de nação capaz de gerar o desenvolvimento nacional.


A quebra da autoridade moral não está circunscrita a pessoa do presidente João Goulart, foi extendida a todos os homens comprometidos com o nacionalismo e dois anos antes do golpe um relatório do setor de informações já apresentava a lista de todos os homens do governo Jango que seriam caçados e perseguidos em 1964.


Diversas “covers actions” forma promovidas contra o Brasil e a diversificação, o número e os recursos envolvidos são espantosamente altos. O pesquisador Carlos Fico da UFRJ lista dezenas de tipos de ações encobertas no seu livro o Grande Irmão cuja conclusão é pobre, pois responsabiliza os brasileiros pelos resultados de uma irresistível Guerra Fechada promovida por meio de ações indiretas.


A CIA patrocinou a campanha de deputados e senadores que fizeram e/ou permitiram a fraude da declaração de vacância da presidência. A CIA também patrocinou passeatas e usou o manto sagrado de Deus e da Família para recrutar colaboradores em todas as camadas de nossa sociedade. Hoje, estas pessoas, autoridades, senadores, deputados, generais, empresários, funcionários públicos e muitos outros só podem ser considerados inocentes úteis ou traidores na História do Brasil.


O departamento de Estado norte americano e a CIA tiveram de cumprir leis e divulgaram provas suficientes de que Jango é o mártir da causa republicana no século XX. Perdemos nossa soberania em 01 de abril de 1964!


A difícil decisão de Jango de combater o golpe sem fazer uso das armas, preservou nossa integridade territorial. O que fazer? Ficar em silêncio quando finalmente existem documentos que desautorizam a continuidade da Mentira e desnudam a verdadeira face dos golpistas como traidores do Brasil!


A maior autoridade diplomática norte-americana no Brasil de 1964, o embaixador Lincoln Gordon veio ao nosso país em 2002 vender a confissão de que a CIA tinha patrocinado o golpe e a eleição de membros do congresso nacional!


O que fazer? A família Goulart decidiu processar o governo norte-americano que descumpriu sua própria carta constitucional e todos os compromissos de Estado assumidos pelos Estados Unidos da América mediante a subscrição da Carta da OEA.


O Brasil precisa conhecer o valor do Estadista que preservou a unidade nacional, quando a tirania tomou conta do Brasil. Jango precisa receber o desagravo devido ao líder legítimo desta nação que foi alijado da presidência por forças e interesses estrangeiros e de traidores.


O verdadeiro resgate da soberania nacional começa com o desagravo e o reconhecimento públicos do valor da resistência pacífica de Jango contra a insurreição militar dos traidores de nossa pátria que preservou a integridade nacional.


Acreditar que não podemos mudar nosso país e que precisamos nos conformar com a situação é obedecer à psicologia de massa usada como amortecedor pelas forças que atuam para impedir o exercício de nossa soberania!


Acreditamos que, neste momento, a defesa da soberania do Brasil precisa obedecer aos princípios consagrados pela política de Estado de Jango: Resistência Pacífica, Legalidade, Diálogo, Democracia e Justiça Social!


João Vicente Fontella Goulart

sábado, 13 de março de 2010

O maior comício de todos os tempos

O maior comício de todos os tempos

Treze de março de sessenta e quatro.
Há exatos quarenta e seis anos atrás, nosso país acompanhava o Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Em pauta as reformas de base do Governo de João Goulart, acontecimento este que foi um dos motivos principais para o golpe civil-militar, que ocorreria no dia primeiro de abril daquele mesmo ano, dia da mentira.
Naquele dia, Jango se comprometeu perante duzentas mil pessoas em praça pública com as reformas da sociedade brasileira.
Tal compromisso custou-lhe o cargo de chefe da nação, e até mesmo a vida.

Muitos já conhecem esta história.
Muitos contemporâneos de João Goulart ainda hoje saúdam com reverência a coragem do seu Presidente em encampar os ajustes estruturais e institucionais da nação. Mesmo assim, nunca é demais relembrar nesta data, o pensamento de Jango sobre as reformas de base que vieram a derrubá-lo.
No site www.institutojoaogoulart.org.br podemos acessar a íntegra do discurso, bem como o documento enviado pelo Presidente ao Congresso Nacional, dois dias após o maior comício de todos os tempos, intitulado “Os novos tempos e as novas tarefas do povo brasileiro”.
Num país de memória curta, tal data simbólica é fundamental também para que as novas gerações saibam que já tivemos um Presidente reformista, empenhado em remover privilégios centralizados, consagrando assim um Brasil com justiça social.
João Goulart transcendeu ao discurso, mesmo sabendo que seria derrocado, para na prática aplicar medidas concretas.
Ao seu amigo e chefe da casa Civil Darcy Ribeiro, confessou:
“Eu caio, mas caio de pé”.
A importância de conhecer o discurso da Central, e também o documento enviado ao Congresso Nacional, reside no fato de depararmos com a realidade de que as reformas propostas naquele momento – agrária, tributária, administrativa, urbana, educacional, política, bancária – mesmo ainda hoje reclamadas pela sociedade brasileira, jamais saíram do plano da teoria.
Conhecendo o fundamento do comício do dia treze de março de sessenta e quatro, entendemos melhor os problemas estruturais e institucionais que perduram até hoje no Brasil.

Christopher Goulart

Presidente da Associação Memorial João Goulart
Instituto João Goulart

domingo, 6 de dezembro de 2009

Jango: 33 anos sem ele.

Há trinta e três anos cala-se a voz de Jango!

Cala-se sua voz física, através de sua morte programada por uma conspiração dos serviços secretos do Brasil, Uruguai, Argentina e Estados Unidos, em uma reunião realizada em setembro, em Montevidéu na “base Arenales”. Era uma espécie de bunker secreto onde operavam as diligências do terrorismo de Estado, onde em reunião privada os Sres. Gral. Queirolo, chefe da inteligência do exército uruguaio, Frederick Latrash, “chief of station da CIA” para o Rio de La Plata (Uruguai e Argentina), o delegado Sergio Fleury do DOI-CODI a mando da ditadura brasileira, o grupo paramilitar que conduzia a operação “Escorpião” até aquele momento de monitoramento e o “Capitán Adônis”, médico legista uruguaio responsável pela manipulação de venenos vindos da operação “Andréa” cujo verdadeiro nome era Dr. Carlos Milles. Ele que manipularia o cianureto de potássio, produzido no Chile na casa de Lo Naranjo, em Cullo, Chile, pelo químico da DINA “Hermes Berríos”, junto com Michael Townley, assassino de Letellier e hoje protegido pelo governo americano, veneno este entregue por Latrash para o prosseguimento da operação “Escorpião”, agora transformada de monitoramento para extermínio.

Continuamos hoje a escutar a sua voz!

Seu exemplo transforma-se em caminho a ser seguido e estudado pela academia neste momento tão singular da perda de valores éticos e morais pelo qual atravessa o nosso país, de vídeos, gravações, processos públicos que atingem todos os poderes da Nação, executivos, legislativos e judiciários, de tão mau exemplo para as novas gerações descrentes dos políticos e sem esperanças ao não conhecerem o passado dos que, como Jango tombou no caminho da liberdade, democracia e justiça social.

A Nação, que demorou quarenta e quatro anos para anistiar Jango, agora demora o seu judiciário em tomar iniciativas concretas de soberania e vontade política de tocar adiante o pedido de investigação feito pelo IPG-Instituto Presidente João Goulart, da abertura de acão civil pública, para citar esses cidadãos americanos como Latrash e Townley, para que deponham diante de um juiz brasileiro sobre a morte do único presidente constitucional de nosso país que ainda não teve as honras de chefe de Estado, tornando-se o único presidente legalista a morrer no exílio em nome das liberdades individuais e coletivas que a democracia e justiça social exigem, até com a morte daqueles que permanecem incólumes diante da história da Pátria.

Mais uma vez torna-se necessário o clamor da soberania nacional de não temer os EEUU e fazer as reivindicações de auditivas destes personagens tenebrosos dos anos setenta que se abrigam sob a proteção do Estado imperialista.

Outros países já abriram investigações neste sentido.

A Suprema Corte de Justiça do Chile colocou em forma exclusiva um magistrado com poderes específicos para investigar a morte de seu ex-presidente Eduardo Frei Montalva morto através de uma sopa de bactérias quando se operou no Chile de uma hérnia estomacal, também praticados por compostos fabricados pelo “Hermes” Berríos, morto pelo próprio Pinochet, anos depois como queima de arquivo num balneário perto de Montevidéu, Uruguai.

A Argentina já colocou em prisão seus ex-ditadores e presidentes militares Videla, Galtieri e outros altos militares que praticaram crimes de “lesa humanidade”, tais como seqüestros, assassinatos premeditados, tortura e desaparecimentos seletivos.

O pequeno Uruguai, já nos deu também o exemplo de colocar na prisão seus ex-presidentes “Goyo Alvarez” e Juan Maria Bordaberry, pelos mesmos crimes de seus comparsas argentinos.

A nós nos resta continuar ouvindo o clamor da justiça histórica que se faz necessária ao esclarecimento definitivo da morte de nosso Presidente João Goulart!

A nós nos resta continuar exigindo a conduta seria e responsável de nossas autoridades para que este país não seja visto como inoperante diante das condutas que devem ser tomadas nesta investigação. Inclusive da citação das ex-autoridades americanas que estiveram envolvidas em terrorismo de Estado contra os países da América do Sul nos anos sessenta, setenta e oitenta.

Eles tiveram sim os Dan Mitrione da vida. Eles tiveram sim responsabilidades intervencionistas e criminais contra a vida de nossos líderes de todas as nacionalidades latino-americanas.

Nestes 6 de dezembro, há trinta e três anos nos levaram Jango de nosso convívio, mas não nos levaram a força do seu exemplo de dignidade e conduta que é a morte no exílio em prol da liberdade e democracia!

Mas não vamos esquecer o que temos que esclarecer!

Vamos de cabeça erguida continuar com os exemplos de liberdade e de soberania que conquistamos através de seu exemplo, de sua vida, de sua conduta e por que não reverenciar também a sua morte a serviço da emancipação brasileira.

Morrer pela Pátria não é pouca sorte!

Jango está entre eles!


João Vicente Goulart.

Diretor do IPG-Instituto Pte. João Goulart.

Brasília 6 de dezembro de 2009.