Carlos Eduardo Lins da Silva ombudsman do Jornal Folha de São Paulo, fez duras críticas à cobertura da marcha para Jesus feita pelo jornal. Leia abaixo o texto na íntegra:
Observação: Ombudsman é um profissional contratado por um órgão, instituição ou empresa que tem a função de receber críticas, sugestões, reclamações e deve agir em defesa imparcial da comunidade.
FOLHA DE S. PAULO
Carlos Eduardo Lins da Silva
em 10/11/2009
“Só começa quando termina”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 8/11/09.
“Quem nasceu depois de 1980 não teve a oportunidade de conhecer Abelardo Barbosa, o Chacrinha, mas agora pode saber um pouco sobre ele no filme indicado ao fim deste texto.
Como bem notou o crítico Inácio Araújo, ‘foi um personagem marcante pela maneira como levava à TV um estado anárquico num país dominado pelo autoritarismo e por uma TV marcada pela submissão’. E também por alguns sensacionais bordões que criou.
Um deles era definir o seu programa como aquele que ‘acaba quando termina’. Recentemente, a Folha vem invertendo esse aforismo ao realizar coberturas que começam quando tudo termina.
Isso tem sido muito comum no acompanhamento dos trabalhos legislativos do Congresso. Exemplo desta semana: a nova Lei de Licitações, da qual nada se falou desde 2 de abril e que o leitor soube na segunda ter passado na Câmara e estar pronta para ser votada no Senado.
É errado jornalisticamente e muito pernicioso para a cidadania agir assim com o Poder Legislativo.
Quase tão grave é deixar de informar ao leitor sobre manifestação na cidade com centenas de milhares de pessoas, como fez este jornal no fim de semana passado com relação à Marcha para Jesus, ocorrida em São Paulo no feriado de segunda-feira.
‘Precisei ir à zona norte, moro em Jabaquara. No caderno Cotidiano, não havia nenhuma informação sobre a Marcha para Jesus, que alterou o trânsito completamente na região. E eu compro o jornal para que, afinal?’, escreveu o leitor Gedeon Alencar. Boa pergunta.
Em 14 de junho, realizou-se em São Paulo a Parada Gay. Na segunda, 15 de junho, texto-legenda na capa chamou para três retrancas internas. Na véspera, haviam saído três matérias sobre ela. Dois dias antes, outras duas. Foi a coisa certa.
Sobre a Marcha para Jesus, nada no sábado, no domingo e na segunda. A cobertura começou só quando o evento terminou.
O certo mesmo para o jornalismo (principalmente neste século) é se esforçar para antecipar os fatos.
José Saramago, no romance recomendado adiante, faz esse diagnóstico ao atribuir a Ricardo Reis a seguinte avaliação: ‘… são assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase sempre quando já é tarde demais para emendar os erros, os perigos e as faltas, bom jornal seria aquele que no dia um de Janeiro de mil novecentos e catorze tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia vinte e quatro de Julho, disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça…’.
Pode ser difícil fazer o que Ricardo Reis quer. No caso da Marcha para Jesus, noticiar às suas vésperas que ela aconteceria, iria mobilizar tanta gente e as implicações decorrentes era lição de casa simples.
E o evento poderia ter servido para editar material de qualidade sobre a importância das denominações evangélicas no Brasil, cada vez maior, em especial entre moradores das periferias das grandes cidades. Mas isso tampouco foi feito.
Fonte: Portal Renascer
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